
Um médico que se preze normalmente procura sanar a questão que lhe foi apresentado indo direto a raiz do problema. Mas muitos também, não sabendo ao certo qual é o “x da questão”, seja pelo despreparo, que pasmem, existem muitos assim, ou pela displicência como é o caso do nosso Sistema Único de Saúde – SUS se propõem erroneamente a remediar superficialmente o paciente, prolongando desta forma aquela deficiência que inicialmente poderia ser bem simples de solucionar, mas que pela negligência vêm a se tornar crítica e necessitada de intervenções bem mais complexas para tentar salvar o paciente.
Assim é com a igreja e a cidade em minha ótica. No caso da igreja, historicamente ela é detentora de um dualismo que separa corpo e alma, sagrado e profano, mas ao mesmo tempo têm respondido ao seu comissionamento de servir a Deus em sua Missio Dei. Nesse privilégio em poder fazer parte dessa grande e maravilhosa tarefa, a de pregar as boas novas de Jesus Cristo, a igreja tem alcançado muitas vidas, mas bem aqui existe um ponto de conflito, pois, é só pela misericórdia de Deus, que é o responsável pela Missão, que a igreja consegue ‘alcançar’ alguém.
O conflitante disso, é que cada vez mais, e aqui nós calvinistas nos alegramos, é que constantemente é mais pela misericórdia de Deus, do que pela ação da igreja que isso acontece. Essa afirmação está justamente no proselitismo que muitas igrejas locais estão fazendo, por inúmeras razões que já sabemos, e também pela sua prática ‘evangelizadora’ baseada em seu dualismo que foca um lado em detrimento do outro, e também em sua má compreensão do evangelho, que é concebido e propagado historicamente como preocupado somente com as coisas ditas da alma, promovendo assim uma remediação que em muitos casos é insuficiente pela abrangência da dificuldade, que se fora remediado holisticamente teríamos a solução certa para a transformação total de qualquer realidade.
Com isso, não estou dizendo que tudo o que foi feito durante séculos de nada valeu, até porque sou pertencente a esse corpo e responsável também pelos ônus e bônus. Mas quero dizer que ainda hoje com tantos problemas urbanos que direta e indiretamente atingem a todos nós, nós, a igreja, ainda propomos remediações ao mundo sem a eficácia integral do evangelho, prolongando assim muitas coisas que facilmente poderiam ser resolvidas se nos empenhássemos mais no serviço diligente do Reino.
Agora no caso da Cidade, muitos dos seus problemas urbanos ainda persistem devido a planejamentos e gestões totalmente irrelevantes para a causa da própria cidade e de seus habitantes, que segundo observamos ao longo dos posts, a cidade e seus constituidores são um só, e por isso, quando um é afetado o outro vive as seqüelas. Fora também o anesteziamento da cidadania militante frente ao quadro político que deveria ser o executor de bons planejamentos, mas não é devido a sua politicagem corrupta que tomou mais intensidade nos últimos anos.
Desta forma, é a partir dessas duas realidades de remediações superficiais que temos que entrar com intervenções, pois, se negligenciarmos isso teremos um prognóstico de mais caos, até porque uma vez que a igreja que também é detentora de uma mensagem de salvação/libertação continua sendo irrelevante para os problemas que a cercam, e por outro lado a constante e enorme migração para os grandes centros se acumulam, e os problemas também, pode gerar, ou já está gerando, um grande câncer onde todos infelizmente serão os responsáveis. E não adianta apelar para escatologias desumanas que afirmam que as coisas devem piorar para que venha logo a parusia do Cristo, até porque como também vimos em nossa proposta, é o mundo e as cidades o palco que Deus escolheu para que a sua Igreja lhe responda na viração do dia: “es mi aqui Senhor, usa-me a mim!”